Olho a rosa… Na janela…

Olho a rosa… Na janela…

Há tristeza… Choro e… Velas…

Google – Um incêndio na boate Kiss, no Centro de Santa Maria, no Rio Grande do Sul.

Nessas janelas não haverá rosas. Só velas. Tristeza. Jovens na flor de suas idades jamais poderão cantar à suas amadas… Que amadas? Elas morreram também.

A vida acabou. A festa acabou. A nuvem negra sobre o santuário se fez noite opaca, tosca… O céu e a terra unidos na fuligem de almas brancas enfumaçadas em gritos e desesperos alucinados de seres passando pela transição doída, dolorida… Sem jamais poderem cantar… O meu amor… O meu amor…

Olho a rosa na janela,

Sonho um sonho pequenino…

Se eu pudesse ser menino

Eu roubava essa rosa

E ofertava, todo prosa,

À primeira namorada.

E nesse pouco ou quase nada

Eu dizia o meu amor,

O meu amor…

Modinha (Sérgio Bittencourt).

Nossos filhos estavam lá! Sonhando um mundo alegre, divertido… De esperança. A maioria estudantes com sonhos lindos pela frente. O passado ficou… O futuro morreu… A rosa chorou… Em luto…

Vi a pneumonia química. Alvéolos avermelhados. Olhos lacrimejados. “Minha alma chorou tanto… Que de pranto está vazia”!

Saí para encontrar minha mulher e irmos almoçar.

Sempre andamos ali na Rua Barão do Rio Branco. Eu trabalhava na COHAB, ela na Regional de Saúde.

No caminho do restaurante, perguntei: “O carnaval vai cair em quais dias este ano?”.

Ela respondeu: “Dias 11, 12 e 13… Eu acho… Graças a Deus!”.

Como… Graças a Deus? Indaguei… Então não é uma festa pagã? Coisa do diabo?

É que vamos ter folga no trabalho e acho que já estou no limite para tirar férias! Justificou.

Ah! Exclamei! Então Deus criou o Diabo para dar folga aos trabalhadores exauridos!

É… Seu… Prendeu o ar.

Silêncio reticente.

De súbito vimos um palhaço usando o celular. Era palhaço mesmo! Ele falava: “Alô querida…”.

Comentei que ele estava falando com a palhaça. Minha mulher sentenciou: “É o palhaço ligando para a palhaça e combinando uma bela palhaçada para aquela noite”!

Rimos.

Era a esquina das ruas Barão do Rio Branco e Pedro Ivo.

Lembrei-me que no carnaval somos todos palhaços.

Mas esse era real. Luiz Carlos, ele me disse. Sou o palhaço Méguinho. Sou amigo do Ratão e do Ratinho! Deu-me um folheto “Será este o filme da sua vida?”. Dentro, havia fotos de cenas do cotidiano, do tipo: “Jovem demais para pensar em Deus?” – “Cansado demais para pensar em Deus?” e finalizando com uma foto num velório, “Tarde demais para pensar em Deus?”.

Fiz mais um amigo. E dos bons! Tanto riso… Tanta alegria… Mais de mil palhaços no salão!

Era mesmo uma caminhada para encontrar amigos, antes e depois da refeição. Na volta do restaurante, encontrei um amigo que não via há mais de 15 anos. Serginho Grossman. Fiquei emocionado com o encontro de um amigo antigo. Sempre fico feliz ao encontrar “figuraças” que me são caras. Há uns dias atrás, foi um telefonema com meu contemporâneo de faculdade de arquitetura, Osvaldinho Hoffmann. Chegando a minha casa vi as fotos deles e das famílias no Facebook.  Serginho estava com seu filho jovem. Pensei… Eu e esse cara já aprontamos todas… Baladas e etc… Sobrevivemos! Lembrei-me dos meus filhos. Baladas. Incêndios! Voltou-me a lembrança os filhos mortos em Santa Maria.

Obs.: Serginho, Osvaldinho… Inho! Era assim que carinhosamente os tratava. E eram tratados! Mantenho!

Em casa, peguei o recém-comprado livro de Anne Tyler, “O Começo do Adeus”, e fui ler um pouco. Ficção da autora onde a esposa do personagem Aaron, Dorothy, morta, aparece com frequência para ele. Diálogos metafísicos. Não sei por que, o título ligava-me aos jovens asfixiados que devem ter tido um Começo de vida para chegarem ao momento do Adeus! Vidas curtas, exíguas, tão rápidas que a história pode até não captar.

“O Começo do Adeus”… “Começo da Agonia”…

Google- Fogos de artifícios.

Chorei… Não procurei esconder…

Todos viram, fingiram… Pena de mim não precisava.

Ali onde eu chorei… Qualquer um chorava.

Dar a volta por cima que eu dei…

Quero ver quem dava…

Os jovens estudantes da boate Kiss não verão este elos…

Nem estes livros… Jamais!

Tornaram-se páginas rasgadas a caminho do etéreo!

“Contar uma dor é consolá-la.”

Eça de Queirós.

É isso que estou tentando fazer. Esse carnaval vai ser triste. Não dá para ignorar o fogo consumidor das almas jovens de Santa Maria. Vão chorar o Pierrot e Colombina.

Se eu pudesse ser menino…

Eu roubava essa rosa…

A tragédia abriu muitas feridas mundo a fora. Foi um “Dejà vu” para muitos.

Em Santa Maria era o fogo… No filme “O Impossível” de Spielberg, o horror era a água. Parece que a Terra é constantemente purificada pelos quatro elementos.

Entremente.com – filme “O Impossível”.

A dor causada em circunstâncias extremas, não é somente física. É dor da alma. Quando um dos elementos da natureza se destempera, o Universo treme e estupora o núcleo dos nossos átomos. Ficamos impotentes!

Entremente.com- filme “O Impossível”.

O ruído ensurdecedor das águas, o som de galhos entrando na carne, gritos sofridos e muitas crianças chorando. Isso tudo me faz imaginar as cenas reais do que ocorreu na boate Kiss. O fogo, não sei, deve ser tão ensurdecedor quanto à água em sua fúria devastadora.

O desespero de não saber se salva os outros ou se tenta fugir desesperadamente para uma zona fora do inferno.

O inferno pode ser de água? Dizem que é de fogo. Acho que inferno é inferno. Tanto o fogo quanto a água… Afogam!

Entremente.com- filme “O Impossível”.

No filme, história real, o pai consegue encontrar os filhos.

Os pais de Santa Maria não verão mais os seus filhos!

Quando o mundo presencia situações como estas, fica mais sensível em solidariedade. É fechamento em espírito de corpo. Quando se fala em fogo, logo vem à mente o “Fogo do Inferno”. Porém, o fogo não é emblema só do mal. Fui buscar informações e encontrei várias situações. Até do “Fogo Sagrado”. Só para viajar um pouco longe da tristeza de Santa Maria no Rio Grande do Sul.

Antigamente em Roma, nos templos da deusa Vesta, havia Vestal (Sacerdotisas) para muitas coisas – mas, a principal, era a Vestal ou as Vestais que tinham por incumbência, zelar pelo Fogo Sagrado. Se, por acaso o Fogo Sagrado apagasse, castigo terrível seria dado à Vestal zeladora – talvez, até a morte… Por que… O Fogo Sagrado representava o Deus dos Deuses. Tudo o mais era secundário naquele Templo – menos o zelo pelo Fogo Sagrado. O Fogo Sagrado, não era um Objeto de Ritual; Ele existia, para que a Sacerdotisa fosse aos poucos, se incorporando a Ele. Quando a Vestal, na sua pureza de virgem, de intocada, sentisse que transportava o Fogo Sagrado em si, era quase como deslizasse, ao invés de andar com as pernas. As Vestais, na idade acima dos trinta anos, saindo do Templo, poderiam levar uma vida normal, casando-se, constituindo família. Mas, acho que a Vestal que desejasse fazer “Votos” com relação ao Culto Interno do Fogo Sagrado, aquela que sentisse mesmo que uma Vida de Luz havia nascido dentro dela, esta sacerdotisa despertaria em si a Ambição da Luz, no desejo de desvendar o estado em que estaria à medida que subisse os degraus da Escada Cósmica no Templo do Universo. Clarisse – Escola de Filosofia Espiritualista Raios do Amanhecer.

Google – Imagem.

Fênix e o fogo sagrado (kundalini), clavícula de Salomão.

A kundalini ou fogo sagrado é uma energia telúrica que vem num movimento de subida, do centro do planeta, numa ação contrária a gravidade e que circula em cada ser humano ao longo da coluna vertebral, alimentando energeticamente os sete principais chacras do corpo humano.

É estudada em várias escolas herméticas do conhecimento.

Os antigos ensinamentos da Índia e do Tibete se referem à elevação das energias enroscadas na “serpente flamejante” como a Kundalini. A raiz “Kund”, em sânscrito, significa queimar ou consumir. A palavra “Kunda” significa bojo ou buraco. Também a palavra “Kundala” significa espira, espiral ou anel.

Google – Imagem.

Voltando ao Rio Grande do Sul, quero expressar meus sentimentos de pesar aos familiares e amigos das almas vitimadas com brutal violência, encerrando um ciclo que nós, pobres mortais, desconhecemos o motivo.

… Roger, 21, e Susiele, 19, morreram no incêndio da boate Kiss… Roger jamais cantará:

Se eu pudesse ser menino…

Eu roubava essa rosa…

Assim será nosso carnaval…

Uma Rosa para você… Outra para mim… Uma para o Roger… Outra para a Susiele…

Olho a rosa na janela… Sonho um sonho pequenino…

Se eu pudesse ser menino… Eu roubava essa rosa…

E ofertava… Todo prosa…

À primeira namorada…

 

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