Fontes Secas

Fontes Secas

Exatamente agora, ao escrever a primeira palavra, uma tempestade com pedras “metralhou” o telhado aqui de casa! Surrealista cena cinematográfica em que a luz do dia, imediatamente, deu lugar ao breu noturno! As luzes dos postes acenderam-se, como relâmpagos, criando-se um brilho de diamante nas pedras de gelo que se precipitavam com vertiginosa violência sobre a crosta da superfície vizinha. Havia alguns dias que a umidade do ar não passava dos 12%. Estávamos vendo tudo esturricado nestas plagas do Sul do Brasil, onde não é comum esse tipo de clima.

Curitiba amanheceu assim depois da tempestade!

Porém, o resto do país continua com penúria d’água.

O reservatório da Cantareira, que abastece 8 milhões de moradores do Sudeste, está com apenas 4% de sua capacidade. No Rio de Janeiro, o fogo se espalha pela região serrana.

A situação das queimadas em Minas Gerais está cada vez mais crítica.

Embora as fotos sejam espetaculares, as consequências são catastróficas!

Em tempos não muito remotos, a seca era tema de romances, poesias e teatro no Nordeste do Brasil!

Somos muitos Severinos iguais em tudo na vida: na mesma cabeça grande que a custo é que se equilibra, no mesmo ventre crescido sobre as mesmas pernas finas, iguais também porque o sangue que usamos tem pouca tinta.

João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina.

Já em 1938 o escritor Graciliano Ramos escreveu Vidas Secas. Essa coisa de seca vem de longa data. Graciliano não focaliza os efeitos do flagelo da seca através da crítica, mas em narrar uma fuga da família, a desonestidade do patrão e arbitrariedade da classe dominante, impossibilitada de adquirir o mínimo de sobrevivência. Objeto de criatividade de pintores como Cândido Portinari, a falta d’água ficou documentada na história desse país continental.

Mais antigo ainda foram os períodos dos perigos do clima e das doenças na Idade Média. Hoje o vírus Ebola está aí! Até conquista variante no Brasil!

Seria o retorno da Peste Negra? Segundo Geoffrey Blainey em seu livro “Uma Breve História do Mundo” a peste não foi um evento isolado quando ocorreu no ano 1348. Provavelmente tenha atingido a Ásia e África alguns séculos antes. Entre os anos 165 e 180 uma epidemia semelhante atingiu o Império Romano. Três séculos depois a Peste Bubônica veio da Índia, atingindo Constantinopla no ano 542. A maior parte que morreu estava condenada dentre uma semana em que manifestava os primeiros sintomas – dor de cabeça, febre alta e o aparecimento sobre a pele de um caroço, do tamanho de um ovo. A Peste Negra se espalhou lentamente no inverno e rapidamente no verão! Salvador Dalí também desenhou o calor…

A modelo do pintor surrealista deveria estar dizendo para a ave: “Um dia vai faltar água até mesmo para afogar o ganso”! Brincadeira à parte, a coisa está séria!

O Brasil possui o maior potencial hídrico do Planeta!

Considerando a disponibilidade hídrica e as condições de infraestrutura dos sistemas de produção e distribuição, os dados revelam que em 2015, 55% dos municípios brasileiros poderão ter déficit no abastecimento de água, entre eles grandes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, Porto Alegre e o Distrito Federal. O percentual representa 71% da população urbana do país, 125 milhões de pessoas, já considerado o aumento demográfico.

Lata d’água na cabeça

Lá vai Maria, lá vai Maria.

Sobe o morro e não se cansa

Pela mão leva a criança

Lá vai Maria.

Maria lava roupa lá no alto

Lutando pelo pão de cada dia

Sonhando com a vida do asfalto

Que acaba onde o morro principia…

Aqui no Brasil, vou ter que jogar muitas moedinhas nas “fontanas” para pagar a energia elétrica! Quando estive em Roma… Não passava em minha cabeça… Quaisquer Fontes Secas!

 

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