Navegar é preciso…

Navegar é preciso…

Na semana em que Moby Dick faz 161 anos escolhi o tema que conta bem à história de todos nós. Somos caminhantes, voantes e navegantes. Quando nos movimentamos, entramos nessa barca. Embarcados, navegamos em mares bravios ou amainados. Tempestuosos ou em calmaria.

Quando a lisura da superfície das águas é espelhada e calma, o mar é de Almirante.

Quando é muito brava, é de Surfista… Que navega também em sua prancha. Quando nasci em Curitiba nos idos anos 50, percebi que minha carcaça navegava naquele ar frio, onde as estações do ano eram bem definidas. Aprendi no colégio que existiam quatro estações.

Primavera, verão, outono e inverno. Hoje isso pode acontecer no espaço exíguo de apenas um dia.

Passei a tenra infância nesta capital miscigenada com uma gama variada de etnias.

Eu era bem loirinho e meu apelido era “polaco”.

Meu primeiro irmão era moreno e o apelido dele era “bugre”.

A vida cigana e navegadora começou.

A carreira jurídica do meu pai levou-o para o interior do Paraná. Ficamos com os avós paternos num lindo casarão chamado Vila Joana, com sótão e porão.  Quase na esquina das Ruas Marechal Deodoro com General Carneiro. Ali meu barco começou uma navegação fabulosa. País regido em Regime Militar.

Muitos logradouros públicos com nomes de Sargento, Capitão, Tenente, Major, Coronel, General e Marechal. Época em que o civismo era latente. Tinha Exercito e Marinha, as Forças Armadas.

Hoje há forças armadas nos morros e nas periferias aquarteladas das grandes cidades.

No Paraná, moramos em Reserva, Marechal Mallet, Bela Vista do Paraíso, Rolândia e Londrina.

Cada um desses portos me proporcionou uma história de navegação.

A criança queria ser piloto de avião a jato ou marinheiro de grandes fragatas. Os olhos eram voltados para a aeronáutica e marinha.

Eu tinha um desejo complementar, queria ser Lupion e morar no castelinho do Batel. Para mim, Lupion era sinônimo de governador.

Exposição Marco Alzamora na Acaiaca Espaço e Arte Galeria.

Falando em barcos, batel é por definição da Wikipédia Google:

Batel é um termo náutico proveniente do latim battelum e, em sentido lato, significa barco (conf. o francês bateau e o inglês boat) ou canoa de boca aberta. O termo Batel, segundo o dicionário Houaiss, refere-se à maior das embarcações miúdas. Segundo o mesmo dicionário, a embarcação servia aos navios antigos (naus) para transporte, por exemplo, de pescado.

Quando um navio não é capaz de chegar a um determinado local, utiliza-se o Batel, pois, por causa de seu tamanho, é quase sempre possível sua passagem em locais pequenos.

A finalidade de um Batel assemelha-se à de um barco, canoa ou bote, tornando estes sinônimos de Batel. A única diferença entre os termos é a época em que foram utilizados – enquanto canoa e bote são termos mais atuais, batel é mais antigo.

Este foi muito utilizado por Gil Vicente, em sua obra Auto da Barca do Inferno, assim como a citação de Pero Vaz de Caminha utilizando o termo batel em sua carta a El Rei Dom Manuel.

Desenho Marco Alzamora – Barcos.

Navegar é Preciso

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:

“Navegar é preciso; viver não é preciso”.

Fernando Pessoa

‘O que Fernando Pessoa, quis nos mostrar com essa frase, “Navegar é preciso, viver não é preciso”?

Se falarmos em “precisão” e não de necessidade, poderíamos imaginar puramente uma navegação em que navegar exige-se um conhecimento calculado, medido e previsível, já em relação à vida não temos nada de preciso.

A vida é incalculável no sentido de momentos, decisões e medidas.  A vida não é exata, não é precisa… ’

Cláudia Rodriguess em Recanto das Letras

 

Navegar é preciso, viver não é preciso.

Lema da Escola de Sagres, Portugal.

‘Navegar tem precisão, viver é como navegar sem bússola… Minha interpretação. ’

Juan Campesino

Como falei de Marinha, Coronéis (não os dos sertões) e outras patentes, quero gravar meu respeito e saudosismo de tempos de civismo.

Hino da Marinha do Brasil.

Linda música e letra.

É de arrepiar! Que saudades!

Música: Primeiro-Sargento (Exército Brasileiro)

Antonio Manoel do Espírito Santo

Letra: Segundo Tenente (Reformado) (Marinha do Brasil)

Benedito Xavier de Macedo

Qual cisne branco que em noite de lua…

Vai deslizando num lago azul.

O meu navio também flutua…

Nos verdes mares de Norte a Sul…

As evoluções dos Fuzileiros Navais em concursos de fanfarras… Espetacular!

De Londrina embarquei para Belo Horizonte. Ops!

De barco não se chega a BH!

Minha barcaça era alada nessa viagem. Fiquei lá 10 anos.

Peguei outro barco e fui para Barra do Piraí cursar o primeiro ano de arquitetura. A faculdade era num antigo mosteiro na estrada para Vassouras. Nas aulas de desenho artístico tirávamos os sapatos. Os pássaros cantavam com Heitor Vila Lobos.

Dalí eu fui para Belo Horizonte outra vez.

Cursei mais quatro anos de Arquitetura e Urbanismo na UFMG.

Voltei para Curitiba e me formei na UFPR em 1978.

Arquiteto e Urbanista navegando outra vez. Fui para a Bahia do Antonio Carlos Magalhães. Mais 10 anos comendo acarajé, mingau de tapioca, moqueca de peixe e azeite de dendê.

Dos 10 anos soteropolitanos, morei seis curtidos anos em Itapuã.

Era vizinho do poeta maior, capitão do mato, Vinicius de Moraes. Ali eu navegava todos os santos dias.

Conheci o arquiteto Sergio Ferro, que já morava em Grenoble, sul da França. Era catedrático de uma Unité Pédagogique d’Architecture (escola de arquitetura).

Embarquei de novo.

O Sergio foi meu Diretor de Tese.

Fiquei hospedado na casa do diretor.

Grenoble é o centro de tecnologia da França.

Quando cheguei lá, abajour era a única palavra que eu sabia em francês.

Depois de três meses, aprendi a falar algumas frases.

Daí, eu fui navegar…

Fui morar em Berna, linda capital dos ursos suíços.

Sem barco, raspei a bunda varias vezes em Gstaad, estação de inverno onde o Ivo Pitangui tem um chalé…

Coisa de ralé bem chulé!

Criei na minha mente outro barco e voltei a navegar.

Fui para Grécia. Korfu é uma ilha no extremo noroeste daquele berço da civilização.

Não muito civilizada nos tempos atuais.

Aluguei uma vespa (espécie de lambreta) e percorria a ilha todos os dias, frequentado a praia de Paleokastritsa.

“Navegar é preciso; viver não é preciso”.

Fernando Pessoa

Navegar é preciso…

Embarquei em um navio noturno e fui amanhecer em Brindisi na costa sudeste da Itália.

Lá havia muitos navegantes…

Google

Bela marina. Embarcações do Programa “Meu Barco Minha Vida”… KKK

Naveguei até Ostuni.

Cidade caiada das colinas italiana.

Desenvolvimento urbano helicoidal.

Além de navegar, mergulhávamos em águas límpidas para pegar polvos e comê-los nas pedras da praia. Batíamos o molusco na pedra até amolecerem e mandávamos para dentro da goela!

No caminha de volta ao povoado, parávamos o “barco” na beira da estrada e colhíamos pitanga no pé. Sobremesa natural e deliciosa. Fiz bons amigos navegantes.

Como já escrevi em coluna anterior, meu bisavô era monegasco. De origem italiana, Pietra Santa, Toscana. Ele também era navegador, poeta e maestro do além mar.

Da Itália, naveguei até o Principado de Mônaco.

Aqui tem barquinhos com mais de 100 pés.

Centopeias? Parece que o mundo inteiro navega.

Navegar é preciso… Viver também é preciso… Eu vivo sim… E estou vivendo… Tem gente que não vive… E está morrendo… Ó! Abestalhado… Mareado?

Levanta essa vela do veleiro e veleje até Paris. Peguei uma barcaça e fui ancorar em Paris.

Andei um pouco em solo firme. Para passar a maresia.

Refeito da tontura mareada, fui navegar em Veneza.

Reparem que nem tremi para tirar a foto.

Passei em Roma e joguei uma moedinha.

Não havia nenhum barquinho na Fontana Di Trevi.

Claro que não poderia deixar de ir até Firenze dar um abraço na pedrinha que se apaixonou e ficou por lá. Lembram-se da pedrinha do meu artigo “Semiótica Arquitetônica”?

O David estava cuidando bem da pedrinha!

Voltei a Paris, me alimentei e naveguei para minha pátria amada Brasil!

Minha ultima refeição parisiense.

Brasil! Aguarde-me que estou com o vento em popa!

Cheguei ao Rio de Janeiro, após 30 horas de navegação aérea, passando por Caracas, Bogotá e sobre a Floresta Amazônica, onde pedi um prato cheio de feijão.

Minhas coisas estavam todas em Salvador. Não tinha voo para a Bahia. Vim para Curitiba mesmo. Fiquei quase três meses antes de retornar a Itapuã.

Fiz uma exposição de barcos na Acaiaca, no Largo da Ordem.

Fui buscar minhas coisas lá na terra da pimenta e, em Curitiba, assumi a Coordenadoria do Patrimônio Cultural da Secretaria de Estado da Cultura. Naveguei de Superagui a Guaraqueçaba.

Essa peça rara era o Curador do Patrimônio Natural…

Grande amigo e colega de trabalho, Paulo Henrique Schmidlin, o Vitamina.

Aprendi muito com esse marinheiro da vida. Alma linda da natureza divina.

Em 1989 embarquei para o recém-institucionalizado Estado do Tocantins. Terra do Siqueira Campos.

Norte velho de um Goiás esquecido por muitas décadas a fio.

Ganhei na mega sena e comprei minha morada navegante.

Casa Abril – Google

Qual cisne branco que em noite de lua…

Vai deslizando num lago azul.

O meu navio também flutua…

Nos verdes mares de Norte a Sul…

Minha homenagem a Marinha do Brasil.

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